domingo, 15 de março de 2009

Na alegria ou na tristeza


Jovem de 17 anos morreu ao cair da moto que pilotava*

Repórter é assim: fala com todo mundo e em situações das mais diversas. É na alegria, é na tristeza. Mas são nos momentos de dor que mais somos lembrados. Temos inclusive o apelido de abutres quando estamos lá, fazendo a cobertura de alguma tragédia. Relatando os detalhes de um desastre automobilístico ou natural; um homicídio ou morte de causas naturais.

Em se tratando de cidade pequena, como a que moro, com cerca de 50 mil habitantes, sendo milhares deles residentes na zona rural, afastados geograficamente da “violência social e urbana” da cidade, tem coisas que é muito importante sair no jornal. A página policial com assuntos tórridos é uma delas. Capa legal e campeã de vendas nas bancas é quando tem prisão de traficantes (principalmente quando tem gente da “alta” envolvida) e homicídio. Como todo mundo se conhece, todo mundo sabe a história de vida de pelo menos um dos envolvidos; seja a vítima, ou, seja o autor do crime.

Bom, uma coisa é certa: Se somos abutres, somos porque o leitor – no caso da mídia impressa - tem uma predileção em saber, com detalhes, como o vizinho foi preso, assaltado ou morto. Se tiver sangue então, eles têm uma necessidade que parece natural em conhecer tudo que aconteceu, com riqueza de detalhes. Se tiver mistério em torno da história, a gente tem que descobrir e relatar para os leitores. Se for um caso passional (putz!) chegam a nos (repórteres) parar na rua para revelar detalhes – essa parte é legal - ou pedir a confirmação do que eles já estão carecas de saber.

Enfim, se não há prisões, mortes ou furtos, não há notícia no interior. Desculpe. Tem sim! Os interioranos também adoram ver seus exemplos de vida estampados no jornal. São os 15 minutos de fama que cada um quer ter e ver como exemplo social, exemplo para as crianças ou apenas como forma de exibicionismo. Compreendo isso bem, essa sensação do estrelismo, essa necessidade de provar àquele seu “amigo” ou para o pai e a mãe de que se venceu na vida. Eu entendo isso, talvez pelo meu perfil vaidoso, pela questão étnica ou sócio-econômica. Ou tudo junto.

Só sei que disso daí eu entendo e gosto de reportar, mas acidente, tristeza, morte, ladrões, ou seja, tudo relacionado a polícia, eu odeio. Mas repórter, e de cidade pequena ainda, é peão. Faz até cobertura de velório de anônimo virar notícia de capa. Infelizmente.


* Difícil é ter que falar com os pais, no momento da dor da perda de um filho e ainda ter que fazer uma foto do velório. Não dá para pedir licença para as pessoas para poder registrar o melhor ângulo. Nem subir num banquinho para fazer uma foto mais "informativa". Sorry, mas não consigo (minha Olympus X-775 ainda me salvou com essa imagem).

2 comentários:

  1. putz! sabe que essa é uma curiosidade que tenho...
    como separar o "profissional" nessa hora...
    deve ser impossivel não se "comover/emocionar" com uma situação dessas...

    ResponderExcluir
  2. Nessas circunstâncias, o sangue frio aparece depois que entrei em campo. Antes fico cheia de remorsos, culpa, dó, mas depois que a pessoa começa a falar, eu tiro até as fotos de infância da família (exagerei...). Sinceramente, não dá para separar, o negócio é omitir...

    ResponderExcluir

Troque uma ideia comigo sobre essa profissão perigo...