sábado, 7 de março de 2009

Personalidade




Karam, o médico desbravador
Não foi engenheiro porque não era bom em matemática. Para ser advogado teria que falar em público, então escolheu a medicina e acabou salvando vidas durante décadas

Ele não era bom em matemática, então descartou a profissão de engenharia. Também não era bom em oratória, por isso não se formou advogado, então sobrou a medicina e em 1943, com 24 anos, estava formado. Hoje, Francisco Karam, gaúcho de Bagé, filho de libaneses, tem 90 anos e ainda muita história para contar, dedicação e força para trabalhar.

Disposição não lhe falta, mesmo que seu dia comece e termine cedo. Com quatro horas diárias de consultório, o clínico geral mantém-se ativo e atual no exercício da profissão. Ao completar nove décadas, ele fala sobre suas experiências, desde o tempo em que começou na medicina, na cidade de Tupandi (RS). “As grandes cidades já estavam saturadas de médicos, enquanto em outras, de menor porte, havia um déficit”, lembra o médico, que comenta que há mais de 60 anos, o mercado de trabalho nas grandes cidades já estava saturado.

Ele veio noivo para Arroio Trinta, depois de passar dois anos atuando na cidade gaúcha. “Cheguei no vilarejo em 1946, quando ainda haviam pinheiros. Na época, não tinha mais de trinta ou quarenta casas e uma igrejinha de madeira”, recorda o médico, que teve que trocar o dicionário de alemão (que usava para se comunicar com os pacientes em Tupandi – RS) pelo de italiano quando se transferiu para cá. Foi em Arroio Trinta onde ele teve um grande feito médico: uma craniotomia.

O fato aconteceu em Maio de 1947. Um agricultor havia se acidentado na roça e como médico da região fez o atendimento. O agricultor Atílio Rech, de 32 anos, "derrubava o mato" para fazer uma queimada e plantar a roça, mas uma das árvores caiu sobre ele, causando-lhe uma hemorragia na cabeça que lhe causaria a morte se a pressão não fosse aliviada. “Ele foi entrando em coma e eu tive que operá-lo ali mesmo para descomprimir o crânio. Saiu aquele sangue, o cérebro aliviou e ele viveu 50 anos depois disso”. Sua sala de operações era no hospital de madeira, cuja iluminação era de lampião e o dono do hospital o ajudara na anestesia e a esposa do paciente na operação. Essa experiência foi a que mais marcou em sua vida como médico. “Eu era recém formado, havia quatro anos, tinha mais coragem”, complementa.

Para quem quer saber sua receita de bem-estar e saúde, Dr. Karam não esconde: “Todos sabem que beber e fumar fazem mal a saúde e eu não bebo e nem fumo. Durmo e acordo cedo, trabalho e faço exercícios.” Francisco Karam completou 90 anos no dia 5 e comemora a data com a família e amigos. Ele tem oito filhos, sendo seis naturais de Arroio Trinta e dois de Videira. De todos eles, apenas um seguiu a carreira do pai; uma ginecologista que atua em Florianópolis.

Perfil

No último dia 5 de março, quinta-feira, o filho de pai e mãe libaneses, educado por uma madrasta uruguaia, completou 90 anos de idade. Gaúcho de Bagé (RS), cidade fronteiriça com o país vizinho, Uruguai, ele fez o curso de medicina na Faculdade de Medicina de Porto Alegre, atual Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de 1938 a 1943. Foi médico em Tupandi (RS), Arroio Trinta (SC) e em Videira (SC), onde continua até hoje exercendo sua profissão.

Acompanhou as mudanças da medicina, especializando-se em Raios X e ultra-som. É membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia. Escreveu artigos médicos publicados nas décadas de 40 e 50 nas revistas "O Hospital" e “Revista Brasileira de Medicina”, ambas editadas no Rio de Janeiro.

Na literatura tem dois livros publicados, um se trata de uma sátira política, nominado de Pedra Branca, publicado pela Rio Quinze Editora, em 1993. O segundo é um livro de crônicas, lançado em 1998, pela Editora Insular. Memórias de Um Médico do Interior traz suas experiências na profissão, desde o primeiro momento em que começou a exercê-la, em Tupandi.
Ele é casado com Lourdes, há 63 anos, e com ela tem oito filhos, 19 netos e 12 bisnetos.

* * *
Fotos e Textos
Elaine Barcellos de Araújo
Veículo
Jornal Correio de Videira
Data de Publicação
7 de Março de 2009
Cidade
Videira - Santa Catarina

2 comentários:

  1. Olá, Elaine, sou filha do dr. Karam e jornalista como você. Quase nos encontramos aí em Videira quando você foi fazer essa entrevista,
    Ficou bem legal,
    parabéns,
    abraços,
    Beth Karam - Fpolis

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  2. Oie Beth

    Quem me conhece sabe que sou uma desmemoriada. Não sei guardar informações ou dados por muito tempo, sem que os use diariamente. Mas o teu pai é o exemplo de lucidez, raciocínio e boa memória.

    Dr. Karam é o contrário. ELe se lembra de tudo que passou em sua vida, com riqueza de detalhes (como diz minha mãe). Adorei conversar com ele. Nada me satisfaz mais do que entrevistar pessoas bem vividas. Faço com um prazer enorme.

    Depois, o velhinho tocou no meu ponto fraco logo no início da conversa: minha vaidade. "Você é aquela moça da fotinho no jornal?" Encabulei e desencabulei ao mesmo tempo. Afinal, o médico, escritor e cronista mais conhecido da região lê a minha coluna...

    Pena a gente não ter se encontrado. Iria adorar trocar informações sobre o mercado na capital catarinense, as novidades na área e as tendências do jornalismo. Um abraço.

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