quarta-feira, 4 de março de 2009

Pode ser verdade mas talvez não seja


Milton Coelho da Graça (o cara da esquerda) e Carlos Piotrowski



Relações entre colunistas (de todas as naturezas) e fontes sempre tiveram característica diferente daquelas cultivadas por outros jornalistas.
Uma repórter como Ramona Ordoñes, do O GLOBO, com muitos anos de experiência na Economia e, particularmente, na área de petróleo, sabe tudo, conhece todo mundo e, melhor, sabe quem sabe o que ela não sabe. Com pequena dica, corre atrás e tanto pode produzir uma materinha para o dia ou uma grande e completa série ou dominical. Com décadas de ralação, ela sente o cheiro de marreta ou "plantação" em qualquer informação passada por interessado ou assessor.
Já para o colunista - diário ou semanal - o desafio principal é preencher aquele espaço determinado. Governos e empresas gastam cada vez mais dinheiro para conseguir divulgação de produtos e atividades, não somente com publicidade mas, principalmente com jeito de "notícias". Ele até pode sentir o cheiro de "plantação" quando um assessor lhe passa uma "exclusiva", mas acaba aceitando.
Vejam essas notinhas que estou inventando mas se parecem muito com outras que saíram recentemente em jornais ou revistas:
1. "O ministro Edson Lobão viajou ontem de Brasília para o Rio na cadeira P-5, lá atrás e no meio, imprensado entre dois outros passageiros gordinhos. Mas em momento nenhum pediu qualquer privilégio, disse à atendente da empresa aérea que era a qualquer outro passageiro."
2. "O presidente Lula e dona Marisa dormiram muito pouco na noite de quinta-feira passada, preocupados com o estado de saúde do vice-presidente José Alencar. Além de colocarem uma secretária em plantão permanente, também se revesaram em ligações para o hospital Sírio-Libanês, em São Paulo."
3. "O superempresário Eike Batista está preocupado com o desemprego no Brasil. E tem passado horas, sozinho em seu gabinete, comparando os números de vários países e a eficiência de cada medida de alívio tomada em nos países do G-20."
Uma ou até todas essas notícias - totalmente inventadas por mim - poderiam ser verdadeiras. Mas a verdade não é importante no caso. Outras, bem parecidas com essas, já foram publicadas em colunas de revistas e/ou jornais. E certamente todas foram passadas "só para você" por um dos ótimos e espertos jornalistas que trabalham como assessores de comunicação no Planalto, em outros palácios ou empresas.
Tá certo, Milton, como é que você prova isso? Bem, venho lendo teimosamente esses colunistas e recortando as notas "espertas". Por exemplo, após reunião super-reservada no Planalto, sempre aparece uma ou duas notinhas "exclusivas" sobre uma frase ou uma atitude do Presidente, que obviamente não poderia ter sido passada por ele mesmo nem qualquer outro dos participantes.
A sabedoria do assessor - ou malandragem, como cada um preferir - é exatamente essa, a de dar uma notícia boa para o assessorado e relativa a algo que, mesmo sem ter ocorrido, não possa - de jeito nenhum - ser desmentida. Para o colunista, resta o sabor da exclusividade, mesmo sem a preocupação da veracidade, seguindo o velho princípio italiano "se non è vero è bem trovato".
Leiam com atenção colunas de Folha, Globo, Estadão, Veja, Istoé, Época e identifiquem vocês mesmos os especialistas em "plantação".

(*) Milton Coelho da Graça, 78, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.

Um comentário:

  1. É verdade. Não é bom para a cultura de um país estar assim cada vez mais presa a um modelo de mídia de massa que segue essas sutis atitudes, visando arrebanhar a massa da população para suas pseudo-ideologias.
    Pana que a democracia, garantindo o direito à liberdade de expressão, contenha dentro dela mesma mecanismos que podem vir a ser usados para desmerecê-la.
    A Venezuela é um exemplo um pouco gritante de democracia(se é que ainda é uma) frágil. O brasil, embora por outras mãos que não unicamente a do presidente, parece caminhar para o mesmo caminho.

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